Nascer do sol sobre um rio da Amazônia, com névoa, floresta e um barco de madeira junto a uma casa ribeirinha

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Versículo do dia

“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim. Novas são cada manhã; grande é a tua fidelidade.”
(Lamentações 3:22-23, ARC)

Interpretação

O livro de Lamentações reúne cinco poemas de luto escritos depois da destruição de Jerusalém pelos babilônios, em 586 a.C. A tradição judaica e cristã atribui o texto ao profeta Jeremias, que viu a cidade cair, o templo ser queimado e boa parte do povo ser levada para o exílio. São versos de dor sincera, que não escondem a fome, as ruínas e as lágrimas.

É justamente no meio do terceiro poema, o mais pessoal do livro, que surge esta virada. Depois de descrever a própria aflição com palavras duras, o autor diz que vai trazer à memória algo que lhe devolve a esperança (Lamentações 3:21). E o que ele lembra é o caráter de Deus: a misericórdia que não se esgota e a fidelidade que se renova. A palavra hebraica traduzida por “misericórdias” fala de um amor leal, que permanece fiel à aliança mesmo quando tudo ao redor desmorona. O profeta não nega a tragédia; ele afirma que ela não é a última palavra.

Meditação

Chama a atenção o lugar onde esse versículo foi escrito. Não nasceu num dia tranquilo, mas no meio dos escombros. Isso nos ensina que a esperança bíblica não é otimismo de quem nunca sofreu. É a decisão de quem olha a ruína de frente e, ainda assim, escolhe lembrar quem Deus é.

“Novas são cada manhã.” Há um consolo profundo nessa frase. O cansaço de ontem não precisa definir o dia de hoje. Os erros cometidos, as palavras ditas sem pensar e as preocupações que nos tiraram o sono não esgotaram a bondade de Deus. Assim como o sol volta a nascer sobre o rio, mesmo depois da noite mais escura, a misericórdia volta a nos encontrar, fresca, sem o desgaste das falhas passadas.

Amanhã começa um novo mês. Muitos fazem esse tipo de passagem com uma lista de cobranças: o que não deu certo, o que ficou para trás, o que ainda falta. O profeta nos convida a começar de outro jeito, contando primeiro o que não nos faltou. Se ainda estamos aqui, de pé, é porque fomos sustentados por um cuidado que não depende do nosso merecimento.

“Grande é a tua fidelidade.” Repare que, nessa hora, o profeta deixa de falar sobre Deus e passa a falar com Deus. A memória vira oração. Talvez seja esse o caminho para quem atravessa uma fase difícil: lembrar, agradecer e conversar com Aquele que permanece fiel, mesmo quando nós não conseguimos ser.

Aplicação na vida

  • Comece a manhã com memória, não com cobrança. Ao acordar, antes das notícias e das mensagens, lembre-se de uma misericórdia concreta que você recebeu ontem. Deixe essa lembrança dar o tom do dia.
  • Dê a si mesmo e aos outros um recomeço. Se Deus oferece misericórdia nova a cada manhã, também podemos deixar para trás uma mágoa antiga. Procure alguém com quem a conversa ficou pendente e dê o primeiro passo.
  • Escreva o que não faltou neste mês. Neste fim de outubro, anote alguns cuidados que você viveu: o pão na mesa, a saúde, o trabalho, a chuva que voltou a encher os rios e lagos da região, as pessoas que estiveram ao seu lado.
  • Seja misericórdia na vida de alguém. Um prato de comida, uma carona até o porto, uma visita a quem está doente ou sozinho. Pequenos gestos podem ser, para outra pessoa, a prova de que a bondade de Deus se renova.

Oração

Senhor, obrigado porque a tua misericórdia não acabou. Mesmo nos dias de cansaço e de perda, tu continuas fiel. Ajuda-me a deixar para trás o peso de ontem e a receber o novo dia como um presente teu. Que eu comece este novo mês lembrando da tua bondade e oferecendo aos outros a mesma graça que recebo de ti. Guarda minha casa, minha cidade e todos os que hoje esperam por um recomeço. Amém.