A feirante Cláudia Pereira, a 'Morena', reorganiza a conservação de hortifrúti em ambiente refrigerado na feira (Foto: Stephane Brasil)

Temperaturas próximas dos 38°C já provocam mudanças na rotina de feirantes, motociclistas e motoristas de aplicativo, que precisam adaptar horários e aumentar os cuidados para continuar trabalhando

Manaus enfrenta um período de calor intenso que já começa a alterar a rotina de quem depende das ruas para garantir o sustento. A capital amazonense registrou 37,6°C no dia 1º de setembro, a maior temperatura registrada na cidade em 2026 até aquele momento, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

O problema, porém, vai muito além do número apresentado pelo termômetro.

Nas feiras, frutas, verduras e folhas estão estragando mais rapidamente, obrigando comerciantes a aumentar o uso de gelo, refrigeradores e outros mecanismos de conservação. Para quem trabalha com produtos perecíveis, cada mercadoria perdida representa dinheiro que deixa de entrar no orçamento.

Entre motoristas de aplicativo e trabalhadores que passam horas expostos ao sol, a adaptação também já faz parte da rotina. Há profissionais que antecipam o início da jornada, fazem pausas durante os horários mais quentes e prolongam o expediente até a noite para conseguir alcançar a renda necessária para fechar o mês.

Segundo informações divulgadas pelo portal A Crítica, a média das temperaturas máximas nos primeiros dez dias de setembro chegou a aproximadamente 36,8°C, cerca de 2,7°C acima da climatologia esperada para o mês. Nove desses dez dias alcançaram pelo menos 36°C, enquanto quatro chegaram a 37°C ou mais.

A meteorologista Andrea Ramos explica que setembro e outubro estão entre os meses naturalmente mais quentes do ano em Manaus. A redução das chuvas e da nebulosidade durante o chamado verão amazônico favorece maior incidência de radiação solar e a permanência do ar quente.

Outro fator importante é a umidade. O corpo humano pode sentir um calor ainda mais intenso quando a umidade do ar dificulta a evaporação do suor, reduzindo a capacidade natural de resfriamento.

O calor também tem um custo econômico

É justamente nesse ponto que o problema merece uma discussão mais ampla.

Quando um feirante precisa refrigerar mais produtos, há aumento de custos. Quando um motorista precisa utilizar mais água, combustível e manutenção do veículo ou prolongar a jornada para atingir sua meta financeira, o calor também passa a ter um impacto econômico.

Ou seja: o calor extremo está se transformando em uma questão de trabalho e renda.

O trabalhador que permanece exposto ao sol não tem necessariamente a possibilidade de simplesmente interromper suas atividades. Existe uma conta para pagar, uma família para sustentar e uma meta diária de renda a cumprir.

Essa realidade exige que o debate sobre altas temperaturas deixe de ser tratado apenas como uma questão meteorológica.

Manaus precisa pensar no calor como questão urbana

A situação também revela uma discussão necessária sobre o planejamento urbano da capital amazonense.

Árvores, áreas de sombra, pontos adequados de hidratação, espaços de descanso e infraestrutura para trabalhadores que passam o dia nas ruas precisam fazer parte das políticas públicas de uma cidade que enfrenta temperaturas cada vez mais desconfortáveis.

Não se trata apenas de plantar árvores ou instalar estruturas isoladas. É necessário pensar em uma política urbana que considere conforto térmico, mobilidade, saúde, trabalho e qualidade de vida.

O trabalhador de rua deveria ser uma das prioridades desse planejamento.

O que esperar dos próximos dias?

A tendência indicada na reportagem é de continuidade das altas temperaturas, com máximas frequentemente entre 36°C e 38°C, embora ainda possam ocorrer pancadas de chuva isoladas.

Para quem trabalha ao ar livre, cuidados básicos tornam-se ainda mais importantes: hidratação frequente, pausas em locais protegidos do sol e redução da exposição durante os períodos de maior aquecimento.

Mas é importante lembrar que a responsabilidade não pode ficar somente sobre o trabalhador.

Quando o clima começa a mudar a jornada de trabalho, aumentar custos e provocar perdas econômicas, o assunto deixa de ser apenas sobre previsão do tempo. Passa a ser também sobre políticas públicas, condições de trabalho e planejamento das cidades.