Ser criticado não é o fim. É muito bom estarmos naquela zona de conforto, onde não sejamos questionados por nada que façamos ou falemos, onde não haja nenhum tipo de ataque que nos afronte, em uma situação que ninguém nos contradiga porque nada temos que falar digno de contradição. Mas a zona de conforto é o local apropriado para quem não realiza para quem não tem uma postura digna de sua própria consciência, de quem mantém o direito de defender naquilo que tem convicção ser o correto, ainda que contrarie interesse outros. Quando saímos da área de conforto, podemos ser apedrejados, injuriados, criticados, ameaçados e realmente isto não é fácil.
Pessoas da envergadura de Gandi, Mandela, Madre Tereza, e outros foram severamente criticados porque marcaram época e deixaram a zona de conforto para fazer muito mais do que aqueles que viviam apenas para observar e apontar erros. Nem sempre a virtude e a perfeição destas pessoas foram a pauta de seus adversários, e na verdade, não se deve esperar apenas virtudes e acertos de quem sai de sua zona de conforto para realizar, pois além das virtudes seus erros também acompanham. A questão não é esta, mas a capacidade de realizar, de fazer, independente de estar no poder público ou fora dele, porque para realizar e fazer basta ter iniciativa e não o poder político.
Madre Tereza de Calcutá conhecidíssima no mundo inteiro pelo seu trabalho junto “aos mais pobres dentre os pobres”, ganhadora, também, em 1979, do Prêmio Nobel da Paz não deixou de ser criticada. Em determinado momento de sua vida, a madre Teresa foi criticada por ter recebido uma doação de Jean-François Duvalier, o ditador Baby Doc, do Haiti. Pela história de vida da madre Tereza e pela necessidade premente de recursos, essa doação poderia ter passado como mais uma daquelas que salvariam muitas crianças em muitos países. Mas o problema era que os recursos doados vinham de um ditador corrupto, sanguinário, que muito mal fez ao seu país e as crianças do seu país, portanto, dinheiro sujo, indesejável, oferecido por pessoas que querem salvar a alma através do dinheiro, seja de que fonte for. Os críticos não deixaram passar este gesto, demonstrando que os “meios não justificam os fins”.
Mandela, o grande herói do Apartheid sofreu severa críticas por sua amizade próxima para com líderes como Fidel Castro (Cuba) e Muammar al-Gaddafi (Líbia), a quem chamou de "irmãos das armas". Sua decisão em invadir o Lesoto, para evitar um golpe de estado naquele país, também foi motivo de controvérsia. Casou-se três vezes. A primeira esposa de Mandela foi Evelyn Ntoko Mase, da qual se divorciou em 1957 após 13 anos de casamento. Depois casou-se com Winnie Madikizela, e com ela ficou 38 anos, divorciando-se em 1996, com divergências políticas entre o casal vindo a público. No seu 80º aniversário, Mandela casou-se com Graça Machel, viúva de Samora Machel, antigo presidente moçambicano e aliado do CNA.
Gandhi foi assassinado por alguém que discordava dele e só sabia usar as armas da violência. No dia 30 de janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado a tiros, em Nova Déli, por Nathuram Godse, um hindu radical que responsabilizava Gandhi pelo enfraquecimento do novo governo ao insistir no pagamento de certas dívidas ao Paquistão. Godse foi depois julgado, condenado e enforcado, a despeito do último pedido de Gandhi que foi justamente a não-punição de seu assassino. Há pessoas que não suportam o contraditório e abrigam dentro de si um fanatismo que leva a cometer atos agressivos e desesperados porque alguém tem a coragem de pensar diferente dele. Tenho ouvido várias ameaças por manter este blog dentro de uma linha que tenho mantido desde que o criei. Alguém berrou para mim esta semana: Tu vais morrer! É certo que morrerei, mas, por favor, não apresse minha ida...
Com este texto, quero dizer que os mais virtuosos homens, por mais justas que foram suas causas foram criticados e até assassinados por defenderem o ponto de vista que os fazia andar de acordo com sua consciência. A política não é o caminho da virtude, apesar de quem caminhe por ela deve andar dentro de uma ética que seja a mais conciliadora possível. O que há mais forte na política é a discordância e não a concórdia, o bem comum passa por cima de determinados grupos que não aceitam o contraditório e querem fazer ecoar seu discurso através da força. Mesmo diante da revolução, após deve haver o Estado de Direito.
Por isso, quem sai da zona de conforto, deve está preparado para o que vier. Sejam as críticas duras, sejam as ameaças e até mesmo a antipatia. Não é o calor da hora ou medo das críticas que vão dizer quem estava certo ou errado; é o tempo, são as realizações, os avanços sociais que encontram o abrigo no peito de quem recebem. Quanto à virtude, deve ser buscada por todos, até mesmo pelos políticos, mas quase sempre não é alcançada.